Flores para Algernon | Daniel Keyes

em 19 setembro 2020

    Olá meu povo, como estamos? Hoje eu trago a resenha de uma das minhas últimas leituras, feita em coletivo com a Babi, do Meu mundinho quase perfeito


Flores para Algernon | Daniel Keyes
Foto: Hanna Carolina/Mundinho da Hanna

30/12

Livro: Flores para Algernon 

Autor: Daniel Keyes

Editora: Aleph

Páginas: 288

Ano: 2018 (edição atual)


Aos 32 anos, Charlie trabalha na padaria Donners, ganha 11 dólares por semana e tem 68 de QI. Porém, uma cirurgia revolucionária promete aumentar a sua inteligência, considerada gravemente baixa. O problema? Enxergar o mundo com outros olhos e mente pode trazer sacrifícios para a sua própria realidade. E resta saber se Charlie Gordon está disposto a fazê-los.
Flores para Algernon | Daniel Keyes

   Charlie Gordon está para viver a maior experiência que um ser humano já teve, pelo menos é isso que a Fundação Welberg promete.
   Desde pequeno, o rapaz ouve que é diferente, que tem que ficar dentro de casa, que é uma vergonha para a família, que é burro... e também vê sua mãe correndo para cima e para baixo, vendo especialistas que prometem fazer de Charlie um menino inteligente. 
   Assim, ele cresce com esse sonho de ser esperto, ser inteligente, para fazer sua mãe feliz. Quando a Fundação Welberg o convida para participar de uma experiência, exatamente para "ser mais esperto", ele não pode perder a oportunidade de realizar esse sonho. 
  Mas tem um pequeno detalhe que não contaram a Charlie, que ele vai ter que encarar sozinho... 
  Apesar de ser considerado praticamente um clássico do scifi, confesso que eu não conhecia esse livro, até que se tornou famoso de uma hora para outra e minha amiga Babi me convidou para fazer uma leitura coletiva dele. 
  Normalmente, quando ela me convida, é porque o livro é forte (rsrsrs). E eu percebi isso lendo logo nas primeiras páginas. 
  Charlie Gordon é um menino especial, que tem um sonho de ser inteligente. Inteligente para deixar sua mãe orgulhosa, inteligente para poder conversar com seus amigos sobre coisas importantes. Inteligente para deixar sua marca no mundo. 
  Aos 32 anos, seu sonho está prestes a se tornar realidade, com um experimento revolucionário, que a equipe do Dr. Nemur está desenvolvendo. 
  Aceitando ser a cobaia, Charlie vai ser submetido a uma cirurgia no cérebro. Para tal, os pesquisadores precisam de relatórios de progresso, escritos pelo próprio Charlie. 
  Assim, conhecemos o Charlie antes, durante e depois da cirurgia, através da narrativa de seus próprios relatórios. 
  No começo, a leitura é incômoda, pois Charlie mal sabia escrever. Então o livro é escrito errado de propósito, o que vai mudando conforme Charlie faz a cirurgia e vamos acompanhando seus progressos. 
  Porém, mesmo que a escrita mude ao longo das páginas, eu continuei incomodada. Isso porque Charlie começa a perceber tudo o que faziam e ainda fazem com ele. 
  Os amigos que ele achava que eram amigos, a família que ele achava que o amava, ele vê que as coisas não eram bem como ele imaginava e isso me deixou agoniada.  
    

  Ler as situações pelas quais Charlie percebeu que passava me dava nós no estômago e pensei em largar a leitura várias vezes. 
 Só continuei porque a escrita, apesar de incômoda e errada de início, era fluida. Então acabei passando rápido por essas cenas, mesmo que ainda estejam marcadas na minha mente e me deixem enojada. 
  Além disso, muitos foram os apelos para que eu continuasse a leitura, com a promessa de que eu teria uma surpresa. E de fato eu tive. 
  Tive momentos mais cômicos, de descoberta, de filosofia, de autoconhecimento e autocrítica... e uma surpresa no final que me fez chorar. 
  Quem me conhece sabe que sou bem difícil de chorar com uma leitura. Poucos foram os livros que me tocaram assim. E nunca pensei que choraria lendo scifi
  Charlie é uma pessoa sensível, curiosa, mas determinada a provar para todos ao seu redor o quanto é bom e esperto. 
  Mas quando ele consegue, acaba afastando as pessoas novamente, que sempre tem medo dele. Ora tem medo porque são preconceituosos, ora tem medo porque se sentem ignorantes perto dele. 
  É uma situação muito confusa, fora que a tal cirurgia só "resolveu" o problema da inteligência intelectual. Mas e a emocional, como fica? 

"Mas, mesmo enquanto escrevo estas palavras, algo dentro de mim grita que existe mais. Sou uma pessoa. Eu era alguém antes de passar pelo bisturi do cirurgião."


  Charlie tem que lidar com várias questões, que muitos de nós ignoramos, mas sabemos que existem dentro de nós, como cobranças, sentimentos, convívio com a sociedade... 
   É muita informação nova e Charlie ainda é tratado como uma cobaia por onde vai. Isso é agoniante. 


"O que é correto? É irônico que toda a minha inteligência não me ajude a resolver um problema assim."
     

Flores para Algernon | Daniel Keyes
Foto: Hanna Carolina/Mundinho da Hanna
   O tempo todo fiquei incomodada também com os termos utilizados quando se referiam ao Charlie. Era sempre "o retardado", "o imbecil", ou mesmo "o imbecil-gênio". Não apenas se referiam a ele, como a casa que o acolheu era chamada "Lar para retardados". 
  Levando-se em consideração que o livro foi escrito na década de 1960, tentei relevar, pois naquela época não se tinha tantos estudos, muito menos preparo para lidar com pessoas especiais. 
  Mesmo assim, eu não consegui relevar porque me senti muito agoniada lendo esse termo recorrente. Inclusive Charlie questiona o termo e achei sensacional essa pegada do autor. 
  Aliás, Charlie veio para incomodar o leitor. Primeiro porque vemos as coisas acontecendo do outro lado da moeda, pela visão da pessoa que está constantemente sendo jogada para escanteio, xingada e escorraçada por onde passa. Isso por si só é triste e dá agonia. 
  Depois que ele passa pela cirurgia, vai para outro patamar, o de que as pessoas querem tanto que as outras pessoas sejam modeladas para serem iguais a elas, mas quando conseguem, não sabem lidar com certas "verdades" que aprendem sobre si.


"[...] Excepcional se refere aos dois finais do espectro, então eu fui excepcional a vida inteira."

 "Estranho sobre aprender; quanto mais longe eu vou, mais vejo o que nunca soube, que sequer existia."


   Isso faz Charlie ser eternamente solitário, e sua única companhia é Algernon, o ratinho que passou pelo experimento primeiro e se tornou o único ser que compreende Charlie. 
 Ambos são cobaias, ambos são mostrados em eventos, feiras, e congressos como macacos de circo e sabem exatamente coo é a sensação que o outro passa. 
 Essa única relação de amizade que Charlie me fez ficar ligada também ao Algernon. Toda vez que Charlie constatava alguma descoberta sobre si, ou sobre o mundo ao seu redor, eu só conseguia concordar com ele: que o mundo pode ser feio, sujo e maldoso até demais. 
  Mas, se souber procurar, pode ser a melhor coisa que já te aconteceu. Isso porque Charlie faz umas descobertas sobre si mesmo, que também dão um quentinho no coração. 
       
    



Flores para Algernon | Daniel Keyes
Foto: Hanna Carolina/Mundinho da Hanna
   Acho que, se puder resumir em alguns sentimentos o que tive lendo esse livro foi: raiva, agonia, com uma pitada de quentinho no coração. 
   Charlie só queria ser alguém, mas tinha uma necessidade incrível de agradar aos outros. Talvez porque ele foi condicionado a isso desde criança. Mesmo assim, não deixei de ficar incomodada. 
   Incomodada com o desenrolar da história, com os personagens (em especial com a mãe e a irmã de Charlie), com essa necessidade desmedida de Charlie em agradar o mundo, quando o mundo não estava preparado para ele. 
  A relação de Charlie com o Dr. Nemur também é bem complicada, mas quem salva é o Dr. Strauss, o psicólogo de Charlie. Eles tem uma relação muito legal, que ficou bem construída. 

"O que aconteceu comigo? Por que estou tão sozinho no mundo?"


  Esse livro veio para mostrar que cuidar da nossa saúde mental é bom, mas tudo tem limite. Será que era necessário Charlie fazer uma cirurgia, só para "ser igual a todo mundo"? 
  Até que ponto Charlie não poderia ser respeitado por quem é? Sem precisar ser uma cobaia de igualdade? 
  Será que nossa inteligência emocional não precisa ser cuidada também? Só a parte intelectual que importa? Mas e o resto de nós? Como lidamos? 
  Charlie tem problemas sérios para lidar com seu emocional, talvez porque ele enxergou que a sociedade é doente, não ele. 
  E ver isso junto com Charlie incomodou muito, porque eu percebi isso também, olhando pelo ponto de vista dele e concordo com as conclusões dele. 
  Mesmo sendo um livro de scifi, esse não é um livro de ficção apenas. É um livro que te pica e te morde, que te incomoda e te faz pensar fora da caixa. 
  Falando do livro em si, eu só li a versão digital. Então posso falar que é um livro com uma boa diagramação e a revisão está ok, embora tenha esse detalhes proposital do começo do livro. 
  Charlie é um personagem muito bem trabalhado, que vai acabar te conquistando e você vai torcer por ele em vários momentos. Assim como vai sofrer com ele e chorar em vários momentos. 
  Somando isso tudo, dou nota máxima ao livro. 



 



   Já tinham lido esse livro? Gostam de scifi?  Já se surpreenderam positivamente com um personagem assim? Me contem aí! ;)



24 comentários:

  1. Estou com esse livro na lista para ler não sei há quanto tempo e ainda não consegui adquirir. Mas sempre vejo falarem tão bem e toda as vezes renova a vontade de ler <3

    Abraço

    Imersão Literária

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    1. Espero que consiga ler esse livro, ele é um daqueles que "você deve ler antes de morrer", sabe? Recomendo.

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  2. Oi Hanna,
    Esse livro me parece unânime, daquele necessário, emocionante e que dá vários tapas na cara.
    Estou de olho nos preços para comprá-lo!
    beijos
    http://estante-da-ale.blogspot.com/

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    1. É mesmo, falou tudo! =) Espero que consiga comprar Quando ler, me fala o que achou?

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  3. Ao ler sua resenha senti uma certa agonia em relação ao tratamendo dado ao Charlie, fiquei incomodada só de ler a resenha, acho que é um livro forte e se a proposta é incomodar e fazer com que as pessoas repensem atitudes acho que esse livro cumpre a proposta.
    Beijos.


    https://www.parafraseandocomvanessa.com.br/

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    1. Ele é para incomodar mesmo, e alcançou perfeitamente os objetivos... rs

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  4. Oi, Hanna como vai? Parece-me uma obra excepcional. Ótima resenha. Que bom que gostou da leitura. Abraço!

    https://lucianootacianopensamentosolto.blogspot.com/

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  5. Uau, deve ser um livro que faz a gente refletir, fiquei doida para conhecer! <3

    https://www.kailagarcia.com

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  6. Oi, Hanna. Tudo bem?
    Esse livro está na minha lista e sempre percebo quanto as pessoas dizem da agonia que sentem. Tem muito mais do que imaginava nessa história e agora quero ler mais do que nunca.

    Beijos, Vanessa
    Leia Pop

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  7. Agora preciso ler! Parece ser uma leitura linda, dolorosa, mas linda, acompanhar todo o desenvolvimento do personagem e a percepção que ele vai ganhando das coisas ao seu redor, acho que nos faz aprender junto com ele! Nunca cogitei ler scifi mas esse já vai pra minha listinha <3
    Beijoss, Blog Seja Agridoce ♥️♥️♥️

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    1. Pois recomendo bastante, viu? É um livro que mexe com todos que o leem.

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  8. Oi Hanna,

    Esse livro para ser tão impactante, imagino as cenas do personagem começando a descobrir e entender certas coisas ao seu redor.
    Fiquei bem curiosa.
    Dica anotada com certeza.

    Bjs
    https://diarioelivros.blogspot.com/

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    1. Espero que goste da leitura, é muito impactante mesmo, viu?

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  9. Fiquei um pouco agoniada, mas fiquei a fim de dar uma chance a essa leitura. Adorei a resenha!

    Beijo.
    Cores do Vício

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    1. A ideia do livro é deixar a gente agoniada mesmo... rs Mas vale muitíssimo a pena, viu?

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  10. Livro bom é assim, que emociona, faz a gente refletir, e fica marcado. Fiquei doida para conhecer! <3

    https://www.kailagarcia.com

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  11. Olá, Hanna.
    Eu lembro de ter visto o título do livro mas não sabia do que se tratava. Eu não sou muito de ler esse gênero, mas vez ou outra eu me arrisco e fiquei bastante interessada nesse. Eu gosto de livros assim que nos incomodam e mexe com a gente hehe.

    Prefácio

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    1. Eu sinceramente, nem diria que era livro de scifi. Está mais para drama e dos bem pesados...
      Mas enfim... rs

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  12. Hanna, fiz essa leitura esse ano e fiquei igualmente mexida. São tantas as reflexões que ele nos traz... fiquei de fato incomodada com a postura de muita gente nesse livro. AMEI! Beijos! Karla

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    1. Eu também fiquei bastante incomodada, viu? Acho que a ideia era em essa na verdade... rs

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Muito obrigada pela visita e seja sempre bem vindo ao Mundinho da Hanna.
Ficarei imensamente feliz com seu comentário, desde que:
- Não contenha palavras de baixo calão;
- Não seja span.
Os comentários costumam ser respondidos nos finais de semana. =)
Bjks!

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